A Síndrome Alcoólica Fetal - SAF é uma condição grave e irreversível relacionada diretamente à exposição do feto ao álcool.

A Síndrome Alcoólica Fetal - SAF é uma condição grave e irreversível relacionada diretamente à exposição do feto ao álcool.
*PSIQUIATRA - Ruy Palhano Silva
Muitos já ouviram falar deste transtorno, e os que acompanham seus estudos sabe o quanto esta síndrome vem crescendo no Brasil e no mundo, e os estudos não se restringem tão somente a sua ocorrência na população em geral, que já são enormes, mas também à repercussão dela na mente, no corpo e no comportamento de crianças afetadas por este grave problema médico e psicossocial.
O transtorno se verifica através da ingestão de bebida alcoólica pelas mulheres, no período da gravidez. E, esta síndrome, historicamente já ocorria na Inglaterra, desde a primeira metade do século XVIII, quando o consumo de gim era disseminado e as crianças nascidas de mães alcoólatras, eram descritas como fracas débeis e desatentas. Apesar disso, até o século passado, a prática de não ingestão de bebida durante a gravidez se relacionava apenas aos aspectos morais e culturais da sociedade.
Só em 1968, importantes trabalhos científicos demonstraram os efeitos teratogênicos (capacidade de induzir malformações biológicas em fetos) do álcool etílico consumido durante a gestação. E, em 1973, foram identificadas alterações específicas em crianças nascidas nessas condições, denominadas de Síndrome Alcoólica Fetal (SAF).
A SAF é uma condição grave e irreversível relacionada diretamente à exposição do feto ao álcool. Porém, a ciência ainda não identificou a exata quantidade de álcool e o tempo de exposição às bebidas que serão necessários para o desenvolvimento desse transtorno. No entanto, há evidências que sugerem ser o consumo de 20 gramas de álcool suficiente para provocar supressão da respiração e dos movimentos fetais, o que se verificou por meio de exames de ultrassonografia.
A síndrome apresenta anomalias típicas na estrutura do crânio, da face e no comportamento, assim como disfunções no crescimento, no sistema nervoso central, além de outras alterações. O termo “Efeitos Fetais do Álcool – EFA” designa outra condição médica proposta para um grupo de crianças expostas ao efeito do álcool na vida intrauterina que não possuem a clínica completa da SAF.
O quadro clínico da SAF se manifesta com: microcefalia; hipotonia muscular; incoordenação motora; irritabilidade exagerada; baixo peso ao nascer; retardo no crescimento (baixa estatura); retardo mental, leve e moderado; dificuldades no aprendizado; alterações morfológicas do crânio e da face, consistentes, principalmente, em: estreitamento da fissura ocular, lábios superiores finos e lisos, rebaixamento na fixação da orelha e nariz chato e profuso.
Como já é do conhecimento de muitos, o álcool etílico, e muitas outras drogas que agem no cérebro (psicoativas), ao ser ingerido pela gestante, atravessa a barreira hémato-placentária, fazendo com que o feto fique exposto às mesmas concentrações da substância presente no sangue materno. Ocorre, todavia, que para os fetos, os efeitos do álcool são maiores, pelo fato de seu metabolismo ser mais lento, tornando a eliminação da substância mais demorada, aumentando, por conseguinte a permanência do álcool no líquido amniótico.
O etanol induz a formação de radicais livres de oxigênio os quais são capazes de comprometer a estrutura e função das proteínas e lipídeos celulares. Isso aumenta a apoptose (morte celular), prejudicando, por conseguinte, a organogênese (mecanismo biológico que dá origem aos órgãos), fatos que explicariam os inúmeros problemas e prejuízos que sofrem as crianças vítimas desse transtorno, relativos ao seu crescimento e desenvolvimento.
O álcool etílico também inibe a síntese de ácido retinoico, substância que regula o desenvolvimento embrionário. Tanto o etanol, quanto o acetaldeído (substância produzida no processo de metabolização do etanol em nosso organismo) têm efeitos diretos sobre vários fatores de crescimento celular, entre os quais, o de inibir a proliferação de certos tecidos.
Há outros fatores que tornam os fetos mais ou menos sensíveis aos efeitos do álcool: a quantidade da bebida ingerida, frequência de uso do álcool na época da gestação, o estado nutricional da gestante e a capacidade de metabolização do álcool da mãe e do feto.
O consumo de álcool na gestação está também relacionado ao aumento do número de abortos, com o risco de infecções, descolamento prematuro de placenta, hipertonia uterina, prematuridade do trabalho de parto, etc.
Apesar da gravidade epidemiológica e clínica da SAF no Brasil, um caso para cada 1000 nascimentos, ainda há enormes dificuldades para o diagnóstico do alcoolismo em mulheres gestantes, apesar de se saber que, a cada ano, as mulheres estão bebendo mais e engravidando mais, especialmente as adolescentes. Assim, a situação tende se agravar, exigindo medidas preventivas para evitar a incidência da SAF.

*PSIQUIATRA - Ruy Palhano Silva


MÉDICO NEUROPSIQUIATRA, PROFESSOR DE PSIQUIATRIA DO CURSO DE MEDICINA DA (UFMA),
 MESTRE EM CIÊNCIAS DA SAÚDE (UFMA),
 ESPECIALISTA EM DEPENDÊNCIA QUÍMICA PELA (UNIFESP),
EX - PRESIDENTE DA ACADEMIA MARANHENSE DE MEDICINA.
RUY.PALHANO@TERRA.COM.BR



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