O voto do ódio religioso

O voto do ódio religioso: "A religião anda dando as caras nas eleições desse ano. Da pior forma possível.

Em João Pessoa circula em e-mail anônimo, e em alguns blogs, que o candidato Ricardo Coutinho (PSB) é ateu e fez um pacto com o dito cujo. O socialista teria construído também sete monumentos na capital para celebrar essa força. O e-mail ainda diz que o pacto teria sido feito através de uma mãe de santo. O sete seria uma referência a um número cabalístico. Como todos sabem, afirma o tal e-mail, a Cabala é a interpretação equivocada, porque demoníaca, dos textos da Bíblia.

Em escala nacional tem sido a candidata Dilma Rousseff a atingida. As igrejas católicas e protestantes têm orientado seus fieis para não votarem na petista. Alguns pastores e padres em suas preleções afirmam que a candidata é a favor do aborto, do casamento gay – há um e-mail que diz que Dilma teve um caso com uma mulher durante 15 anos. E, além disso, também é ateia. Nunca vi tanta baboseira e preconceito juntos!

E José Serra perde muito da sua credibilidade como político ao usufruir dessa campanha e não deixar claro que ele não pactua com essa idéias tortas.

Bem, antes de qualquer coisa. Não é salutar quando religião e política se misturam. Não em nossa sociedade atual. Os exemplos claros recentes são o oriente médio e seus estados totalitaristas. O inverso também não é positivo: os estados comunistas e o cerceamento de religião. O radicalismo tanto de esquerda quanto de direita são retrocessos dos quais não se tem nenhuma saudade, definitivamente.

A religião também já mandou no mundo e fez surgir fogueiras para queimar as mulheres. As mulheres não podiam pensar diferente que seriam tachadas de bruxas. Essa era a época em que qualquer peste era um sinal do demônio. E essas fogueiras eram erigidas sempre visando interesses particulares, políticos e econômicos. A Igreja e o Estado comandavam o circo, mandando matar os ‘enviados do demônio’ e se apossando de seus bens.

A população era manipulada, e ainda é, pela religião que mantém seus palácios folheados a ouro em Roma. A mesma religião que defende que não se use camisinha, mesmo com risco de pegar AIDS, e fala da abstinência sexual como forma de prevenção das doenças e das altas taxas de natalidade infantil, mas tem dificuldades de manter o voto de castidade de seus clerigos. A população é manipulada por uma religião eivada de escândalos de pedofilia – passou anos tentando escondê-los, enquanto milhares de crianças eram consideradas, elas, as pervertidas. Enquanto isso, seus padres, pastores, bispos, eram promovidos...

Foi a religião quem disse que os negros não tinham alma e os condenou a anos de escravidão. Mais uma vez aí estava o interesse econômico. Foi a religião que utilizada por Adolf Hitler, ajudou a subjugar os judeus e lhes roubar jóias, dinheiro, casas, carros, móveis, cabelos, dentes, roupas e a vida.

As pessoas têm o direito de não acreditar nas religiões ou de não professá-las e isso não significa que elas não acreditam no Absoluto. Significa apenas que elas não se encontraram nos caminhos oferecidos pelas religiões. Ser ou não ser ateu não significa ser mal, assim como ser ou não ser religioso, um fervoroso e assíduo freqüentador de templos e igrejas, não significa ser bom. Conheço ateus que são muito mais cristãos que aqueles que batem no peito a sua fé em praça pública, mas no final das contas são larápios contumazes ou hipócritas.

Sobre o aborto, concordo com o Ciro Gomes (PSB) que diz que a opinião de Dilma e de Serra são idênticas. Os dois são contra o aborto, e pensam na questão como males de saúde pública. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde e do Ministério da Saúde, entre 729 mil e 1,25 milhão de mulheres se submetem ao procedimento anualmente no Brasil. Destas, pelo menos 250 morrem. Quando não morrem, por vezes essas mulheres acabam com sequelas irreversíveis. Algumas colocam produto químico ou objeto metálico no útero para abortar. A chance de infecção e perfuração é muito grande, 1/3 de quem tenta abortar acaba procurando ajuda no hospital. São esses números que fazem com que o assunto na campanha do jeito que está se torna melancólica.

Em relação a Ricardo Coutinho e os monumentos. Primeiro o monumento ‘O porteiro do inferno’ não é da gestão de Coutinho. Foi construído na gestão de Pedro Gondim. O nome ‘Porteiro do Inferno’ refere-se a mitologia grega. Existe um outro monumento em forma de Obelisco, em Mangabeira. Vale a ressalva que em João Pessoa já tem um obelisco: na Praça da Independência e existem vários obeliscos no mundo, a exemplo de Paris, Washington, Buenos Aires, Cairo, etc. Há também o monumento à Ariano Suassuna, esse é feio que dói. Mas fora isso, não tem contra indicação. É inspirado no Movimento Armorial idealizado por Suassuna que resgata a aspectos da cultura popular. Por isso está cheio de carrancas e tem esse visual meio de totem. Não conheço as outras obras. Mas só em falar de três já dá para desmontar essa sanha perseguidora...

Sobre o sete ser um número cabalístico. É verdade. Porque foi no sétimo dia que Deus descansou e disse ao homem para lembrar. ‘Lembra do sábado’. Assim, o sete é o número da lembrança do propósito do homem na terra. Do porquê Ele nos criou. E desculpem os leigos que querem jogar na fogueira a milenar Cabala, repassada por Moises aos seus próprios discípulos. A Cabala, ou Kabalah, não é a interpretação demoníaca da Bíblia. È a interpretação de grandes rabis – mestre judeus – da palavra de D’us.

A Cabala fala do retorno do homem ao seu Criador. Ensina essa caminhada e diz que ela não é possível sem Amor. Outro coisa, a Cabala entende que os textos sagrados não devem ser tomados de forma literal. Para a Cabala, D’us espera de nós muito mais do que apenas seguir ordens cegamente. Ele quer que nós reencontremos a semelhança divina. E essa semelhança jamais será alcançada por vaquinhas de presépio.

Devemos realmente ter cuidado com o mal. O mal que anda nas cabeças e nas bocas daqueles que o buscam insistentemente. Acreditam nele e lhe dão força. Afinal, quem procura acha e passa a viver nessa companhia. Caros amigos, há coisas melhores para fazer do que estimular o ódio religioso. O ódio só alimenta a si mesmo e esse não é o Caminho deixado e ensinado por Cristo.
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do blog: Às vezes é preciso dar uma MASTIGADA

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