Até os chatos podem escrever muito bem!

Até os chatos podem escrever muito bem!: "



Os dois textos abaixo comprovam que não temos que obrigatoriamente concordar com alguém para admirá-lo em algum aspecto.


Acho Diogo Mainardi um babaca pernóstico e arrogante, mas não posso deixar de reconhecer que ele escreve muito bem. Seus textos quando não estão sendo meramente politiquescos, facciosos e sectários, são belas obras literárias, mesmo quando ele nos esnoba. Logo a nós pobres mortais que ao invés de vivermos às margens do grande canal de Veneza, vivemos próximo ao pequenino canal da Jansen.


Mesmo quando ele regurgita seu bolo cultural e nos desenha os fantasmas que bem que poderiam realmente lhe perseguir, ele o faz com competência literária irrepreensível. Mas que ele é um chato, isso ele é.


Mesmo que não tão chato, parecido com ele é também Roberto Pompeu de Toledo que aqui aborda um tema aparentemente fugaz, mas de forma suave e envolvente, nos contando uma história submersa usando uma outra superficial.


Meus Fantasmas (Diogo Mainardi)


“Eu vim morar em Veneza para melhorar a qualidade de meus fantasmas. No Rio de Janeiro, eu convivia com o fantasma de Ziraldo. Aqui convivo com o fantasma de Eleonora Duse e de Gabriele D’Annunzio”


Lady Gaga é assombrada por um fantasma. Ela é igual a Scooby-Doo. Eu também sou assombrado por um fantasma. Eu sou igual a Lady Gaga e a Scooby-Doo.


O nome do fantasma de Lady Gaga é Ryan. Ryan persegue Lady Gaga em todos os lugares. Lady Gaga está em Istambul? Ryan a assombra em Istambul. Lady Gaga está em Estocolmo? Ryan a assombra em Estocolmo. Lady Gaga está em Belfast? Ryan a assombra em Belfast. Lady Gaga tem medo de Ryan. Em Belfast, algum tempo atrás, ela chegou a contatar um médium para tentar despachar o fantasma. O resultado, pelo que eu entendi, foi ruim: Ryan continuou a atormentá-la.


Se Lady Gaga é assombrada pelo fantasma de Ryan e se Scooby-Doo é assombrado pelo fantasma do Cavaleiro Negro, eu sou assombrado pelo fantasma de Eleonora Duse. Depois de passar uma temporada de oito anos no Rio de Janeiro, eu me mudei para Veneza. Vim morar no mesmo prédio em que morou Eleonora Duse. Lady Gaga tem muito mais páginas na internet do que ela. Scooby-Doo tem muito mais páginas na internet do que ela. Até eu tenho muito mais páginas na internet do que ela. Mas Eleonora Duse foi uma das maiores estrelas de teatro de todos os tempos. No fim do século XIX, ela era mais conhecida do que é, atualmente, Lady Gaga.


Há um episódio de Scooby-Doo ambientado em Veneza. No desenho animado, ele é perseguido pelo Gondoleiro Fantasma, que quer roubar um colar precioso. O fantasma de Eleonora Duse, que mora aqui comigo, é bem menos molesto. Ela se limita a recitar A Dama das Camélias, aos gritos, em cima de minha mesa de jantar.


O prédio em que o fantasma de Eleonora Duse e eu moramos está localizado à beira do Canal Grande. Na margem oposta, ligeiramente à esquerda, olhando pela janela, há uma casa vermelha em que morava o escritor Gabriele D’Annunzio. Eleonora Duse e Gabriele D’Annunzio eram amantes. Ele mergulhava no Canal Grande, cruzava-o a nado e vinha visitar Eleonora Duse em meu prédio. Um século mais tarde, seu fantasma continua repetindo a mesma rotina. Eu sempre pego Gabriele D’Annunzio em minha biblioteca, depois de sair do Canal Grande, inteiramente molhado, manchando o tapete e pingando em meu computador.


Já me perguntaram por que vim morar em Veneza. Eu vim morar em Veneza para melhorar a qualidade de meus fantasmas. No Rio de Janeiro, eu convivia com o fantasma de Ziraldo. Aqui convivo com o fantasma de Eleonora Duse e o de Gabriele D’Annunzio. Eu nunca me interessei por estrelas de teatro ou pela obra de Gabriele D’Annunzio. Mas num período como este, de assombroso embrutecimento intelectual, o máximo que posso fazer é tentar preservar alguns fantasmas do passado. Scooby Dooby Doo!


O Morto que Respira (Roberto Pompeu)


No dia 4 de janeiro de 2006, o então primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, sofreu um derrame devastador. A hemorragia cerebral que o vitimou requereu duas operações seguidas, uma de sete horas, outra de catorze, para ser estancada. Dois dias depois, ele foi declarado incapaz de exercer suas funções, e assumiu o vice, Ehud Olmert. Sharon, então às vésperas de completar 78 anos, mergulhou num estado de coma do qual até hoje, quase cinco anos passados, não saiu. Excetuado os parentes e o pessoal medico, ninguém mais o viu. Antes tão presente na história do país, da qual participou, em lances capitais, desde o inicio, e tão exuberante na avantajada compleição física da política israelense, sumiu de um sumiço que nem a morte costuma decretar de modo tão rápido e completo.


Para suprir essa ausência, o artista plástico israelense Noam Braslavsky montou no mês passado, numa galeria de Tel-Aviv, com talento de virtuose do Museu de Madame Tussauds, a cena que o público esta impedido de ver. Ela reproduz um quarto de hospital. No centro, a cama. E na cama, o tamanho natural, um Sharon de resina, metido numa camisa azul, impressionante em seu realismo, os olhos semiabertos, o lençol cobrindo-o até o peito. O falso Sharon, como o verdadeiro, conecta-se com os tubos que o mantem vivo. E respira. O peito vai e volta, enche e se esvazia. Ouve-se o som da respiração. “O corpo de Sharon esta respirando é uma alegoria do corpo político israelense, cuja existência, dependente e sob assistência, é perpetuada artificialmente”, escreveu o curador da exposição, Joshua Simon. Curador é curador. Tem sempre uma tirada com que humilhar o embaçado olhar e a pedestre compreensão dos reles espectadores.


O solene ambiente criado pelo artista leva a uma volta no tempo. Os egípcios embalsamavam o corpo dos faraós. Um faraó ainda embalsamado de fresco, isto é, sem os milhares de anos de distancia com que os contemplamos, não devia apresentar aspecto muito diferente do de Sharon de Braslavsky. Os europeus de outrora faziam estátuas dos reis e rainhas tais como se apresentavam no momento da morte, e as depositavam sobre suas tumbas. A igreja de St. Denis, nos arredores de Paris, onde eram enterrados os reis e rainhas, está atulhada delas. Tão antigo quanto a história do homem é o ritual de, morto o grande líder, preparar-lhe uma embalagem para viagem – a grande viagem rumo à eternidade, na qual ele ganhará a companhia dos deuses, se é que não se tornará ele próprio, um deus. Mais próximos de nós, há os casos dos corpos embalsamados de Lenin e Mao Tsé-tung, expostos ao público nas praças centrais de suas respectivas capitais. Representam a tentativa dos regimes materialistas e ateus da União Soviética e da China de também tirar suas lasquinhas do sagrado.


O cenário criado por Braslavsky, ao qual só podem ter ingresso três pessoas por vez, conduz à mesma ancestral atmosfera de respeito e constrição, misturados a uma pitada de medo, que cerca a morte e seus mistérios. Mas – alto lá! – Ariel Sharon está vivo. Não é o passado dos faraós e dos reis franceses que, ao fim e ao cabo, ali se impõe. É o presente. São os moderníssimos recursos da medicina. Se ele ainda respira, é por causa dos tubos. E os mistérios que a cena suscita são outros, inerentes à proeza científica de manter longamente um paciente nesse estado. Os médicos dizem ser difícil, praticamente impossível, que ele saia do coma. Mas… e se…? e se de repente ele se senta na cama e pergunta: “Que estou fazendo aqui ?”. Ou então ordena: “Convoquem os ministros!”? Os médicos também dizem que o nível de consciência de Sharon é mínimo. Que é um nível mínimo de consciência? Ouvirá um ruído? Sentirá uma presença em seu redor?


Os médicos estão preparando a transferência do ex-primeiro-ministro – o de verdade, que não reste dúvida, não o boneco de resina – para o sítio de propriedade da família, no deserto do Negev. Afirmam que não há nada mais a fazer no hospital. Num lugar ou no outro, ele continuará longe dos olhos do público. A criação de Braslavsky pode ser vista – e foi, por alguns de seus conterrâneos – como indecente invasão de privacidade. Mas tem o mérito de sugerir o amálgama do passado com o presente – o passado em que reis e líderes eram sacralizados no momento da morte e o presente de pacientes que não conseguem nem voltar à vida nem completar a morte. Misturam-se, nesse percurso, mistérios antigos e novos.

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