Pelo welfare state

Pelo welfare state: "
José Sarney (*)

A crise de 2008 começou pelos derivativos imobiliários, passou pela quebradeira dos bancos, abalou todo o sistema financeiro, derrubou as bolsas, subiu o desemprego; e a economia dos diversos países, principalmente os Estados Unidos e os europeus, teve como reflexo a queda - às vezes violenta - do PIB, que se tornou de crescimento negativo.

Como sempre acontece, uns sofreram mais e outros menos. Os casos mais agudos foram os da Grécia, Islândia, Irlanda, deixando sem perspectiva de saída Espanha e Itália.

Agora chegou a vez de fazer um balanço dos estragos das correções, a começar pela Inglaterra, que se vê obrigada a fazer no momento o maior programa de cortes e de mudança do modelo de bem-estar social, que foi a menina dos olhos da social-democracia europeia.

A Espanha e a França resistem a aceitar as medidas de austeridade, que vão do corte drástico dos déficits até mexidas nas aposentadorias, nos salários e nos investimentos, que têm como principal alvo os programas sociais.

A lição a verificar nisso tudo é que a fase do mundo dourado do wellfare state, que se julgava ter vindo para ficar, parece começar a fazer água.

O modelo nórdico na década de noventa já tinha detectado que se esgotara o avanço nas cada vez maiores conquistas sociais, e promovido uma mudança em seu modelo de saúde, que passou a ser considerado o melhor do mundo.

Nos Estados Unidos a questão é justamente o contrário. É que o modelo capitalista criou uma injustiça tal que foi necessário promover-se uma mudança da situação do medicare, que custou prestígio e popularidade a Obama e foi a grande causa parlamentar do senador Edward Kennedy, que morreu sem vê-la vitoriosa.

Quem lê os jornais europeus vê que eles já passaram na contabilidade da crise para entrar na teoria e considerar que o que chegou ao fim foi o modelo de bem-estar social, que não resiste ao ataque chinês de preços baixos e política de exportação mais do que competitiva, além de subsidiada pelo câmbio controlado.

A economia européia, cujo modelo foi sempre de importação de matéria prima e exportação de manufaturados, além de bens de alta tecnologia, enfrenta agora uma mudança radical, com a concorrência dos espaços econômicos autônomos.

Foi por isso que os países em desenvolvimento saíram mais rápido da crise, além de possuírem um sistema bancário mais regulado.

Se estendermos a análise das teorias em mutação vamos ver que também o capitalismo começa a necessitar de algumas mudanças, a começar pela revisão de que o Estado não pode tudo, mas, na hora da onça beber água, é nele que vamos encontrar a água.

Lord Keynes, que já estava sendo esquecido, colocado entre os autores de dicionários de referência, voltou a ser discutido, lido, relido e ressuscitado. A verdade é que, em matéria de teoria econômica, não há verdades dogmáticas nem ações infalíveis. Há sempre a teoria do intervalo, isto é: o tempo em que ocorrem.

(*) Artigo do presidente do Senado Federal publicado nesta quarta-feira no jornal Brasil Econômico
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