E agora, José Serra?

E agora, José Serra?: "

O clima era de velório, como não poderia ser diferente. Santinhos, adesivos e cartazes jogados no chão na ampla sala do antigo Edifício Joelma, no centro de São Paulo, compunham cenário encontrado por militantes tucanos que aguardavam o pronunciamento do candidato derrotado à Presidência José Serra (PSDB).


Estava sendo enterrado projeto de reconquista do poder após oito anos de governo do PT, sob comando de Luiz Inácio Lula da Silva. Por volta das 20h de ontem Serra soube da vitória da adversária Dilma Rousseff (PT), com pouco mais de 90% das urnas apuradas.


Ainda à tarde já faltavam palavras para definir os méritos da chapa durante os quatro meses de campanha eleitoral. O candidato a vice Indio da Costa (DEM) já não sabia explicar quais foram os pontos positivos do programa. Era o prenúncio do nocaute que viria poucas horas mais tarde.


Pela segunda vez, Serra, orgulhoso de sua biografia política como deputado, senador, ministro, prefeito e governador, não conseguiu convencer a maioria do povo brasileiro a lhe conceder a outorga de presidente da República.


A ambição tucana era administrar um País diferente do encontrado em 1995, quando Fernando Henrique Cardoso (PSDB) assumiu o Palácio do Planalto. Diferente daquele que Lula recebeu em 2003.


Um Brasil de legados. Economia estável, melhor estruturado socialmente, mas com enormes desafios pela frente, como redução de juros, acesso facilitado ao crédito, Educação, Saúde e Segurança de qualidade.


O economista não conseguiu. A economista venceu a batalha eleitoral. Para o tucanato, a vitória seria recompensa pelo trabalho executado nas duas gestões de FHC (1995 a 2002). Mas a Nação verde-amarela optou pela continuidade do governo do primeiro operário a sentar na cadeira mais importante do Brasil.


Em discurso de 20 minutos, Serra tentou explicar a derrota. Não conseguiu. Ao lado da mulher Monica e de muitos aliados (Fernando Henrique não compareceu), agradeceu os 43,6 milhões de votos recebidos. “No dia de hoje (ontem), os eleitores falaram e nós recebemos com respeito e humildade a voz do povo nas ruas. Quero cumprimentar a candidata eleita Dilma Rousseff e desejar que faça bem para nosso País.”


O tucano afirmou que “a maior vitória” não foi mérito dele, mas sim das pessoas e militantes ligados a ele. “Pode parecer estranho para um candidato (derrotado), mas não vim falar da frustração. Vim falar da esperança, das pessoas que cavaram trincheiras, construíram a fortaleza, em um grande campo político da liberdade e da democracia no Brasil”.


Serra disse ainda que o grupo está apenas “começando uma luta de verdade”. “Vamos dar nossa contribuição ao País, em defesa da Pátria, da liberdade, da democracia do direito de todos falar, da justiça social, com partidos, com indivíduos, com parlamentares, com governadores.”


O senador Álvaro Dias (PSDB), um dos coordenadores da campanha, disse que é preciso “respeitar a decisão do povo”. “Temos de aprender lições”, reconheceu. “A vitória sepulta equívocos e a derrota faz desaparecer os méritos”, completou.


Agora, resta a Serra juntar os cacos e pensar em seu futuro político. Novas lideranças do PSDB emergem. Talvez faltará espaço para ele. Mas a política é dinâmica. E o tempo irá dizer o que será do agora ex-presidenciável.


“Minha despedida nesse momento não é com um adeus, mas um até logo. A luta continua, viva o Brasil!”, finalizou.


O dia em que quase tudo aconteceu


Ao contrário do que ocorreu no primeiro turno, o dia de votação de José Serra foi movimentado ontem. Aconteceu quase tudo na data em que o tucano poderia ter sido eleito presidente. A calçada de sua casa, no Alto de Pinheiros, bairro de classe privilegiada da Capital paulista, virou parte de campo de futebol e passarela de desfile de fantasias. A agenda do ex-governador também teve protesto, aplausos e solidariedade de aliados.


Eram 10h quando um garoto de 10 anos apareceu com uma bola em frente à residência de Serra, na Rua Antônio de Gouveia Giudice. No País do futebol, bastou a rua estar fechada para que profissionais da imprensa e o dono da pelota fizessem do espaço uma área de lazer.


“Queria ver o Serra. Ele fala coisas maneiras na televisão”, disse o menino, vizinho do político que só o viu passar de carro “algumas vezes na rua”.


Não menos interessante foram as presenças de outras duas crianças na porta da casa do tucano. Um passou rapidamente vestido de personagem do desenho Os Incríveis, da Walt Disney. O outro, Gustavo Porro, 6 anos, mais animado e incentivado pela mãe, fez sua festa particular fantasiado de Drácula, em alusão ao Dia das Bruxas (Halloween), comemorado ontem.


Após as inusitadas atividades que despertaram a curiosidade das dezenas de jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas que aguardavam o presidenciável, Serra saiu para votar no Colégio Santa Cruz, a alguns quarteirões de seu imóvel.


Acompanhado de familiares e aliados, foi aplaudido pelos eleitores que gritavam seu nome, a exemplo do que ocorreu na primeira etapa da corrida presidencial, dia 3. Em discurso na praça ao lado da escola, se mostrou esperançoso na vitória.


Mas deu um sinal de que sabia da dificuldade que era virar o jogo, já que as pesquisas eleitorais davam vantagem de 12 pontos percentuais para a adversária petista, Dilma Rousseff. A pronúncia da palavra “talvez”, ao falar que uma das belezas da democracia é a alternância de poder foi fatídica para a interpretação de que estava consciente do objetivo quase inalcançável àquela altura.


Seu pronunciamento foi menos encorpado do que no primeiro turno. Desta vez, falou menos, discorreu sobre o futuro do País, disse acreditar nas crianças, lembrou das propostas que fizera e finalizou sem convicção. “Agora é o povo que vai se manifestar em todo o Brasil. Essa é uma das belezas da democracia. E a alternância de poder, que talvez possa ocorrer ainda hoje (ontem), é outra beleza da democracia”, frisou, para em seguida ser ovacionado pelos eleitores.


Vice na chapa tucana, Indio da Costa (DEM) votou no Rio de Janeiro e veio a São Paulo acompanhar o sufrágio de Serra. Não poupou críticas à conduta do PT na campanha eleitoral. “Até poço de petróleo inventaram, disseram que acharam na Bahia. E tiveram de desmentir”, salientou o democrata, ao ressaltar que os petistas são capazes de “coisas inacreditáveis”.


Pouco antes de deixarem o colégio para acompanhar o final da votação e a apuração, os tucanos passaram por um manifestante, mas não o viram. O cartaz com os dizeres “Serra vereador 2012″, empunhado pelo estudante de Ciências Sociais Henrique da Cunha, despertou o interesse da imprensa e de simpatizantes da candidatura tucana. A Polícia Militar acompanhou de perto o protesto, que por pouco não virou confusão generalizada.


No dia em que quase tudo aconteceu com Serra, faltou o principal: ser eleito presidente do Brasil.


(Diário do Grande ABC)



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