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A vergonha do Brasil


novembro 1, 2010

por Laila Razzo


“É normal ver carro lá?”, “Você deve sentir falta de árvores né… A mata, e tal”, “Você é inteligente…” *tom de surpresa*.


Comentários e questionamentos do tipo já foram direcionados a mim por dois tipos de pessoas: gringos totalmente desinformados sobre o Brasil e BRASILEIROS sobre o Nordeste.


E aí, BRASILEIROS? Vergonha ein?


E agora vejo que muitos brasileiros culpam uma decisão política por uma tal de burrice nordestina. Por uma tal de miséria nordestina. Por uma tal, também, de incapacidade nordestina.


Que a xenofobia sempre rolou solta por cidades como São Paulo, eu sei, been there, seen that. E nunca foi compreensível, nem aqui, nem na Inglaterra.


Inglês velho (dos que eu vi) adora esbravejar contra brasileiros e polacos, que tão lá fazendo o que não tem inglês afim de fazer. Que tão lá trabalhando na base de tudo, repito, de TUDO, que corrobora pra um inglês ter sua preguiçosa cerveja gelada paga pelo governo ao mais bem fotografado empresário conseguir assinar seus devidos papeizinhos e cortar suas faixas cintilantes de inauguração. Não é muito diferente do que acontece dentro das fronteiras brasileiras.


Ouço muito falar também do preconceito com nordestinos na área de trabalho, aqueles, que não são os que deixam os banheiros dos seus clubes preferidos limpinhos, mas aqueles que estão lá concorrendo cabeça a cabeça com você que só porque nasceu e incorporou um sotaque que fala o “r” nos dentes se acha mais digno da oportunidade. Ora, se você é bom, você é bom, discorda?


Como pode, um professor de uma faculdade como a USP falar pra uma aluna, estando lá por ter sido aprovada de acordo com os processos seletivos e regras da instituição para uma pós, que por ela ser formada pela universidade estadual do Maranhão, ela precisaria ler mais e se empenhar mais que outros? Não era pela preocupação do preconceito, era por puro preconceito.


Entre os próprios alunos das universidades de cidades dotadas de grande concentração de diversidade cultural, como a tão querida e falada aqui São Paulo, existe uma competição, algo como senso de desonra, se um aluno nordestino se destaca. E algumas vezes ele nem pode se destacar, visto que terão mais pés esperando seus passos no meio do caminho para lhe fazer cair do que para qualquer outroense, outroino, outroano.


E dizem: odeio retirantes, eles vem pra cá, poluem a visão da minha cidade com a cara da pobreza, se unem em gangues e preenchem a violência.


Olha, sejamos justos um pouquinho, pra um nordestino malandro que você encontra na rua, existem bem uns trezentos malandrões nascidos e criados pela própria porqueira da sua cidade, da SUA CIDADE. Malandragem não é regional, se fosse, a gente fechava as porteiras e tava tudo numa nice, não é? Se malandragem fosse também coisa da cultura do pobre, não via ninguém precisando de cinto pra segurar a pança cheia de dinheiro sujo, de poder vil.


E se você é pego desprevenido pela expressão castigada de um ser humano no semáforo querendo dinheiro pra não morrer e acha que aquele coitado deveria estar onde nasceu (provavelmente também pra morrer), você é um estúpido, que nem direito ao voto merecia. Se essa visão não lhe dói pela noção da existência da miséria humana, e se isso não lhe faz ver como o seu PAÍS precisa de cuidado, você é pobre, pobrinho, pobre de marré deci, de alma.


E agora é isso. Política. PT no poder é burrice feita por nordestino. É porque nordestino é morto de fome e se vende por pouco. É porque nordestino vive em miséria. Se Nordestino vive mesmo em miséria, então o Brasil também vive, concordam? Como vocês gostariam de ver um país desenvolvido, com a indubitável discrepância social? Tire o Nordeste e você não tem mais Brasil, para bem e para um poderoso e maior mal. Tire o Nordeste, e a casa cai. A casa cai economicamente, a casa cai culturalmente, a casa cai e cai feio, se esbagaça toda no chão, e você vai ficar sem entender. Porque né, você é meio necessitado de desenvolvimento intelectual.


Meu ponto não é falar de política. É falar da visão embaçada que infelizmente temos que testemunhar. É falar da BURRICE que o BRASIL hospeda. É falar que existe coisa pior para o nosso país que a triste realidade de famílias sem teto e sem prato transformadas em números, e isso é a BURRICE de pessoas que tiveram tudo na vida para não cultivá-la e ainda conseguem carregá-la em discursinhos sem força, em comentários nada preciosos, em atitudes hipócritas.


Incapacidade nordestina, eu leio, eu escuto. Ora… Incapacidade! Pois vá ler um pouco sobre História, vá ler um pouco sobre o desenvolvimento dos estados nordestinos, sobre as cidades, vá ler sobre política, vá ler, vá perguntar, vá saber, e venha, venha ver.


Se a sua raiz é ter um pé no desenvolvido que você acha ser os tais países assim chamados, vá pra lá, vá, que você já deve bem se equalizar no pensamento sobre o Brasil comentado no início desse post. Quem sabe você não sofre um pouquinho de discriminação por você ser de onde é, e pare e veja o seu papel anterior em uma situação bem parecida. Só não continue a feder o meu país com sua mentalidade medíocre.

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