O Futuro dos Jornais (Digitais)

O Futuro dos Jornais (Digitais): "



SILVIO MEIRA

O problema do jornalismo digital é descobrir modelos de negócio para remunerar a informação de qualidade
O 'Financial Times' anunciou um aumento de 50% nas assinaturas digitais, chegando à marca de 180 mil assinantes. Por outro lado, pesquisa da Edison Research, nos EUA, revela que apenas 8% dos jovens leem jornal (em papel) pela manhã, contra 29% que o faziam em 2000. Segundo a mesma fonte (bit.ly/bGucBi), 42% desse público está na web no começo do dia, e apenas 16% tinham tal hábito há dez anos.
Compare com as estatísticas da União Internacional de Telecomunicações (UIT, em bit.ly/aoVUS5), dando conta de que o planeta tem 5,3 bilhões de celulares (940 milhões em banda larga), 2 bilhões de pessoas na internet, 71% da população dos países desenvolvidos on-line, 1,6 bilhão de pessoas com acesso à rede em casa e, em países como a Coreia, a Holanda e a Suécia, 80% ou mais das casas conectadas, com a vasta maioria em banda larga.
Estima-se que 500 milhões de casas (29,5%) estejam conectadas à internet, em todo o planeta, ao final deste ano. O que há por trás de tantos números? Os da UIT dizem que quase todo mundo já tem celular e que a substituição dos telemóveis pelos smartphones ocorre rapidamente. Os primeiros são telefones que podem, com muitas restrições, rodar aplicações básicas; os segundos são sistemas pessoais de computação e comunicação que, caso necessário, também podem fazer 'ligações telefônicas'. Nossos hábitos estão passando a ter um substrato cada vez mais digital, conectado, móvel e programável. Em tal contexto, onde ficam os jornais e, de resto, tudo o que se convencionou chamar mídia de massa? A se acreditar nas estatísticas, vamos viver em um mundo conectado, é só questão de tempo. Alguns países e regiões chegarão atrasados, como foi (e é) o caso na penetração de outras infraestruturas essenciais como eletricidade, água e esgoto. Mas é razoável assumir que a conectividade será total. Quando for, qual será a importância do jornal (televisivo) das 20h ou do jornal (impresso) das 8h? Pode ser muito grande ou, por outro lado, nenhuma. Ambos serão importantes se e quando descolarem o conteúdo do meio, que já deixou de ser e de definir a mensagem. O meio, além de limitar as mensagens (no impresso, vídeo?) e a interação (no impresso, só cartas à Redação, literalmente), quase sempre localiza e sincroniza conteúdo. Os múltiplos formatos e meios digitais, da web clássica à móvel, programável, redefinem o espaço e o tempo e o fazem a critério das bordas e não sob controle do centro.
Tanto o 'FT' como a edição digital desta Folha, fora dos limites do papel que os carregava no passado, tornam-se globais num clique de custo quase zero, e muda o público, o espaço, o tempo e as receitas.
Parece claro que na web, fixa ou móvel, o tamanho e a diversidade das comunidades já ultrapassa, em muito, o pico de público que os jornais 'de papel' tiveram no seu auge. Parece óbvio que quem determinava -e determina- a qualidade de qualquer fonte ou veículo não era, ou é, o papel.
Durante muito tempo, o papel era a única forma economicamente viável de carregar informação de um ponto a outro do planeta. Mas, desde o início da internet comercial, sabia-se (http://bit.ly/c8NoMB) que a rede representava 'o fim de um dos fins do papel', como meio de transporte, ainda por cima porque levar um 'New York Times' de domingo em papel até Recife era ambientalmente irresponsável.
Finalmente, uma onda de dispositivos (primeiro) de leitura digital e (segundo) de interação em rede, incluindo tablets, pads e smartphones de todos os tipos e fabricantes, melhorou radicalmente a experiência de leitura fora do papel.
Resultado? Há futuro para jornalismo de qualidade, seja em que meio for... excetuando-se, muito provavelmente, o papel. O problema é descobrir, como está fazendo o 'FT', como remunerar a qualidade da mensagem digital, provavelmente usando modelos de negócios multifacetados, em que nem sempre quem se beneficia da informação está pagando por ela. O detalhe, que não é digital, é que sempre foi assim. Ou não foi?
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