José Sarney, 80 anos, um grande brasileiro

José Sarney, 80 anos, um grande brasileiro: "

Por Ribamar Corrêa

Diretor de Redação de O Estado Maranhão


José Sarney completa hoje 80 anos. Muitos alcançam a marca dos 29.200 dias, mas raros, muito raros, o fazem com uma trajetória tão movimentada e rica. A epopéia humana é escrita por políticos, pensadores, escritores, poetas, humanistas, revolucionários, artistas, enfim, por construtores militantes e obstinados na História. Mas entre eles se sobressaem os que são muito especiais, pois eles marcam efetivamente uma época, seja pelo protagonismo ofuscante, seja pela participação proeminente nos momentos transformadores que desencadeiam eras. Das suas oito décadas de existência, Sarney é um desses protagonistas há seis.


Sarney aniversário 1Como que predestinado a pregar e construir o novo, Sarney nasceu exatamente em 1931, no início da Era Vargas, que pôs abaixo tudo o que sobrara da Velha República. Nesse contexto de mudanças, logo se revelou um filho da precocidade. O político envolveu-se desde cedo com as lutas estudantis e o jornalista-escritor tornou-se grande ainda imberbe – que outro gigante da política foi eleito membro de uma exigente academia de letras aos 22 anos. E quantos homens de letras lideraram uma transformação política e administrativa tão radical num estado aos 36, após uma luta política renhida? No Brasil, somente Sarney.


Na aparência e nos hábitos, Sarney é um cidadão simples, afável e cujos gestos misturam educação e elegância; aprecia uma boa e descontraída conversa; se alimenta prazerosamente quando está em família e milita como o religioso e o devoto que, além de Deus, cultua e reverencia santos da sua predileção, como São José, por exemplo. Mas quando a circunstância cobra a ação do político ou do escritor, ele se transforma, ganha musculatura e assume dimensão de tal magnitude que o separa da média e o remete para o patamar só habitado por grandes. Usa sempre a razão e nunca a emoção para enfrentar tsunamis. São muito poucos os que têm o privilégio de contatar e conviver com um cidadão que tem sobre os ombros o peso e o compromisso de ser José Sarney.


O político começou na militância estudantil, de onde saltou para a Câmara Federal, com pouco mais de duas dezenas de anos, e logo fazendo política maiúscula no movimento “Bossa Nova” da velha UDN. Dali deu um salto politicamente gigantesco, elegendo-se governador do Maranhão, vitória que pôs abaixo o vitorinismo e abriu caminho para as transformações que durante três anos e meio tornaram possível a formulação embrionária do conceito de cidadania e colocaram o Maranhão no mapa do Brasil e do mundo. Esse político, líder e referência de uma geração de ouro no Maranhão, foi para o Senado onde, dois mandatos depois, protagonizou, como presidente do PDS, a reviravolta que assegurou a transição da ditadura para a democracia, processo consolidado com ele, exatamente ele, na Presidência da República. Depois, voltou ao Senado, onde cumpre seu quinto mandato – dois pelo Maranhão e três pelo Amapá -, com o diferencial de quem já presidiu a Casa e o Congresso Nacional por duas vezes.


O governador José Sarney derrubou as velhas estruturas e construiu um estado moderno, moldado em planejamento. Com ele, vieram a energia, a malha rodoviária, o Complexo Portuário do Itaqui, a televisão educativa, as universidades, enfim, tudo o que o Maranhão tem hoje em estrutura e infra-estrutura ou nasceu ou foi por ele planejado; e depois, por seu intermédio, vieram a Alumar e a Vale, a Ferrovia Carajás e a Norte-Sul. O presidente Sarney atuou como estadista e devolveu o país à democracia, liderando, de maneira inconteste, uma transição impecável, sem traumas, sem reivindicar bônus dos incontáveis acertos e assumindo todo o ônus dos eventuais pecados da Nova República. Atacou a velha ordem com o Plano Cruzado, hoje reconhecido como a base da estabilidade e do fortalecimento econômico que embalam o país. Da sua lavra estão de pé o Mercosul e a desnuclearização da América do Sul.


O Sarney das letras é tão bem-sucedido quanto o Sarney político. Dono de uma produção literária de fazer inveja à grande maioria dos escritores profissionais, Sarney é hoje conhecido em todos os continentes e traduzido para mais de uma dezena de idiomas, incluindo o inglês, o francês e o espanhol. Isso lhe valeu a imortalidade pelas Academias Maranhense e Brasileira de Letras, bem como títulos muito especiais, como o de doutor honoris causa pela prestigiada Universidade de Coimbra. Quando presidente, editou a Lei Sarney, que abriu as portas do incentivo para a cultura brasileira. E foi o grande articulador da integração dos países de língua portuguesa, consumada num histórico evento que reuniu em São Luís, em 1988, chefes de estados da comunidade lusófona, entre eles o respeitado líder português Mário Soares e o chefe revolucionário moçambicano Samora Machel.


Sarney e o papa João Paulo II em 1991

Sarney e papa João Paulo II em 1991


Aos 80 anos, Sarney continua em plena forma política e literária, comandando o Senado e liderando a fatia mais expressiva e atuante do PMDB. Além de ser o decano e a referência mais destacada da política brasileira, para frustração de seus adversários, o ex-presidente é, desde 2003, um dos principais aliados políticos do presidente Lula. Nessa posição, contribuiu expressivamente para o sucesso administrativo do governo do PT, o que o torna um dos protagonistas das mudanças que estão transformando o Brasil numa potência.


Em toda a sua trajetória, Sarney teve como aliadas três mulheres, as quais reverencia: a esposa Dona Marly, a mãe Dona Kiola e a filha Roseana. Além delas, os filhos Fernando e Sarney Filho, e netos, irmãos, parentes e amigos. Nesse contexto, o senador teve o privilégio de ver sua filha, Roseana Sarney, tornar-se a primeira mulher a governar um estado no Brasil e, em seguida, a primeira maranhense no Senado da República, e o filho, Sarney Filho, projetar-se como um dos mais ativos parlamentares da sua geração.


Nessa caminhada, Sarney se mantém firme, apesar das traições e das pressões quase insanas de adversários políticos. E, como há dez anos, avalia que o que está faltando ao mundo é utopia, por entender que a humanidade não pode viver sem ela. Hoje, aos 80 anos e uma década mais sábio, Sarney mantém intacta essa convicção, com a satisfação de ver que a História não acabou e está mostrando que ele tem razão.

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