Os idiotas e as baratas são imbatíveis

Os idiotas e as baratas são imbatíveis: "
Sobreviverão ao próprio planeta

Há um visível recrudescimento na idiotização das pessoas. A mídia é a principal usina de produção em série de idiotas e tolos de todos os calibres. O nivelamento por baixo e o achatamento geral do imaginário médio é a principal contribuição dos modernos meios de comunicação de massas. Hoje, é muito fácil encontrar o que eu chamo de idiota triunfante, aqueles sujeitos que se orgulham da própria ignorância e pobreza de espírito. O tolinho jactancioso tira prazer onanista da sua condição, e se basta.

O espírito de nossa época - o Zeitgeist, como diz apropriadamente o alemão - flutua numa emulsão formada por dois elementos: a ciência (as tecnologias) e a idiotice. Os idiotas de nosso tempo se projetam nos gadgets que encontram pelo caminho. Observem: todo o tolo que se preza porta pelo menos um artefato mecânico ou eletrônico. Não vive sem essas muletas. É a sua forma de se referenciar com o mundo, de comunicar a sua estupidez relativa ('afinal, estou conectado ao futuro!').

Mas o fenômeno não é original. Gustave Flaubert, o corrosivo crítico da burguesia, ainda no século 19 já havia detectado o fenômeno da tolice social. Para tanto, começou a colecionar os ditos correntes do senso comum e reuniu-os no famoso Dictionnaire des idées reçues ('Dicionário das ideias feitas', numa tradução livre). O escritor francês comentou - e publicou nesta pequena obra de pouco mais de cem páginas - todas as bobagens ditas pelas pessoas que queriam parecer inteligentes e atualizadas. Aliás, Flaubert seria o descobridor da tolice. Quem garante é Milan Kundera, para quem a tolice é a maior descoberta de um século - o 19 - tão orgulhoso de sua razão científica. Antes de Flaubert não se duvidava da existência da tolice, embora esta fosse compreendida de um modo diferente. A tolice era considerada como uma simples falha do conhecimento, um vazio provisório, passível de ser preenchido pela instrução. Mas Flaubert insiste, e praticamente sustenta a sua obra baseada no tema da tolice e da idiotia. Ema Bovary é uma tola que aspirava ser amada por todos os homens. Bouvard e Pécuchet são dois pequenos idiotas que aspiram conhecimentos enciclopédicos acerca de tudo. Leio agora na Wikipédia que Barthes considerou 'Bouvard e Pécuchet' como 'uma obra de vanguarda'. A considerar a idiotia galopante de nossos dias, pode ser.

Kundera brinca afirmando que 'a descoberta flaubertiana é mais importante para o futuro da humanidade que as ideias mais perturbadoras de Marx ou de Freud'. Pois podemos imaginar o futuro do mundo - prossegue Kundera - sem a luta de classes ou sem a psicanálise, mas não a invasão irresistível das ideias feitas, estandardizadas, pasteurizadas, que, 'inscritas nos computadores, propagadas pela mídia, ameaçam tornar-se em breve uma força que esmagará todo o pensamento original e individual e sufocará assim a própria essência da cultura européia dos Tempos Modernos'.

O mais chocante - constatado pelos geniais romances de Flaubert - é que a tolice não se apaga diante da ciência, das altas tecnologias, da pósmodernidade (seja lá o que isso signifique). Milan Kundera ousa afirmar que 'ao contrário, com o progresso, ela também progride!'

Arrisco a dizer que os bobalhões e as baratas sobreviverão ao próprio planeta.

'Coisas da vida' - como diria Kurt Vonnegut, outro escritor especialista em tolos e idiotas.
"

Comentários

  1. pois é, para quê pensar se o quente é consumir pensamentos? cada vez mais rasos, mas que dão a ilusão de ter se descobrido grandes coisas (!)

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Comentando os Fatos, uma nova forma de divulgar conteúdo com credibilidade.
Os nossos esforços se concentram no sentido de acrescentar ao nosso publico informações diferenciadas, aquele algo mais que ainda não foi dito, ou ainda não foi mostrado, noticias todos divulgam, o diferencial da informação está aqui em Comentando os fatos, credibilidade sempre em primeiro lugar.

Postagens mais visitadas deste blog

Pepe Moreno: e o cego com três filhos aleijados

Expressões da violência no Maranhão serão debatidas em São Luis no Dia Internacional dos Direitos Humanos

Faça uma doação para o Brechó Solidário do Centro de Defesa Pe. Marcos Passerini